

E eu acordei querendo ter certeza que não era sonho. Aquele calorzinho bom sob as cobertas. Aquela sensação gostosa de braços fortes envoltos em meu corpo, protegendo-me. Meus olhos ainda estavam pesados, consequência das poucas horas dormidas desde o dia anterior. Não os abri. Fui te farejando que nem bicho. Seu pescoço, sua barba, o vão do seu braço.. Era você mesmo. Abri os olhos para ter mais certeza ainda que não era sonho. Com a visão um pouco embaçada, pude perceber os raios de luz que entravam pelas pequenas frestas da porta, anunciando que o dia já tinha amanhecido. Me desencaixei de você, driblando com jeitinho os seus braços que sempre querem que eu fique um pouco mais.
Levantei vagarosamente, com a intenção de não te acordar. Sem achar os meus chinelos, peguei o seu 41 que sambava no meu pé 35. Quase esbarrei nas taças de vinho, sujas de vermelho tinto, ao lado da garrafa vazia. Resquícios da noite anterior. O cinzeiro, ao lado das garrafas no chão também continha indícios da noite passada. E imagino que, há alguns anos atrás, jamais iria imaginar que vinho, sonzinho, umas tragadas e você fossem ser meu conceito ideal de uma noite perfeita.
Tropecei em um dos brinquedos que viviam sempre espalhados pela casa. Brinquedos babados, mordidos, jogados. Só que não por crianças. E sim pelos cachorros, que ocupavam brilhantemente esse papel na família.
Lavei o rosto e escovei os dentes. Virei a maçaneta da porta da frente e a luz entrou com toda a força. Fazia um dia lindo, como eu suspeitava. De dentro, podia ver os cachorros se divertindo correndo atrás de uma borboleta e rolando na grama. Eles provavelmente já tinham acordado há horas, mesmo depois de uma noite com interrupções de sono. Cachorros nunca dormem tão ininterruptamente como a gente. Eles são os guardiões da casa, você sabe. Ficam alerta o tempo todo. E a gente, pra compensar, deixa que eles entrem durante o dia e fiquem deitados debaixo da mesa, perto do quentinho do fogão de lenha.
Você ainda dormia, no cantinho da cama, como se eu ainda estivesse lá. Tão lindo, tão sereno, tão meu. Saí do quarto devagar, desci as escadas, abri a porta da cozinha. Os cachorros pararam a perseguição às borboletas e vieram me dar a lambida matinal. Eu sei, também senti falta de vocês. Vêm pra dentro, vêm.
Coloquei a água pra ferver e o pó de café no coador de pano. O cheiro da água quente ia afogando o pó de café e unindo tudo numa mistura irresistível. Aquele cheiro de café saindo era meu vício. Me lembrava de casa. Dos inúmeros cafés da tarde com a minha avó.
Enchi duas xícaras, tomei um gole da minha e levei a sua para o quarto. Você já sabia que esse cheiro de café era sinal que eu já estava de pé, fazia tempo. Essa foi uma coisa que nunca conseguimos alinhar. Você continuava dormindo até mais tarde e eu acordando cedo. Resolvi jogar baixo – fui dando beijinhos enquanto a fumaça do café chegava até você.
- Bom dia. Fiz café pra gente.
Você me puxa pra cama, e eu logo deixo o café esfriando na cabeceira. E imediatamente a gente encaixa aquela conchinha, daquelas difíceis mesmo de explicar.
- O dia está lindo, vamos andando até a praia?
Os cachorros, como que se tivessem ouvido a sugestão, entram em bando no quarto me ajudando te acordar com as lambidas de bom dia.
Enquanto você desperta, naquele ritmo vagarosamente gostoso e só seu, eu concluo, feliz, que aquilo é um sonho. Daqueles sonhados há tempo. Construídos num longo processo de detalhamento de paixões. Ninguém disse que seria fácil. E nós, sabendo que não era impossível, fomos lá e fizemos. Funcionou. É o gosto doce do privilégio de poder viver um sonho, ao invés de apenas sonhar.
Jaque Barbosa, adaptado por affectingyou

E eu acordei querendo ter certeza que não era sonho. Aquele calorzinho bom sob as cobertas. Aquela sensação gostosa de braços fortes envoltos em meu corpo, protegendo-me. Meus olhos ainda estavam pesados, consequência das poucas horas dormidas desde o dia anterior. Não os abri. Fui te farejando que nem bicho. Seu pescoço, sua barba, o vão do seu braço.. Era você mesmo. Abri os olhos para ter mais certeza ainda que não era sonho. Com a visão um pouco embaçada, pude perceber os raios de luz que entravam pelas pequenas frestas da porta, anunciando que o dia já tinha amanhecido. Me desencaixei de você, driblando com jeitinho os seus braços que sempre querem que eu fique um pouco mais.
Levantei vagarosamente, com a intenção de não te acordar. Sem achar os meus chinelos, peguei o seu 41 que sambava no meu pé 35. Quase esbarrei nas taças de vinho, sujas de vermelho tinto, ao lado da garrafa vazia. Resquícios da noite anterior. O cinzeiro, ao lado das garrafas no chão também continha indícios da noite passada. E imagino que, há alguns anos atrás, jamais iria imaginar que vinho, sonzinho, umas tragadas e você fossem ser meu conceito ideal de uma noite perfeita.
Tropecei em um dos brinquedos que viviam sempre espalhados pela casa. Brinquedos babados, mordidos, jogados. Só que não por crianças. E sim pelos cachorros, que ocupavam brilhantemente esse papel na família.
Lavei o rosto e escovei os dentes. Virei a maçaneta da porta da frente e a luz entrou com toda a força. Fazia um dia lindo, como eu suspeitava. De dentro, podia ver os cachorros se divertindo correndo atrás de uma borboleta e rolando na grama. Eles provavelmente já tinham acordado há horas, mesmo depois de uma noite com interrupções de sono. Cachorros nunca dormem tão ininterruptamente como a gente. Eles são os guardiões da casa, você sabe. Ficam alerta o tempo todo. E a gente, pra compensar, deixa que eles entrem durante o dia e fiquem deitados debaixo da mesa, perto do quentinho do fogão de lenha.
Você ainda dormia, no cantinho da cama, como se eu ainda estivesse lá. Tão lindo, tão sereno, tão meu. Saí do quarto devagar, desci as escadas, abri a porta da cozinha. Os cachorros pararam a perseguição às borboletas e vieram me dar a lambida matinal. Eu sei, também senti falta de vocês. Vêm pra dentro, vêm.
Coloquei a água pra ferver e o pó de café no coador de pano. O cheiro da água quente ia afogando o pó de café e unindo tudo numa mistura irresistível. Aquele cheiro de café saindo era meu vício. Me lembrava de casa. Dos inúmeros cafés da tarde com a minha avó.
Enchi duas xícaras, tomei um gole da minha e levei a sua para o quarto. Você já sabia que esse cheiro de café era sinal que eu já estava de pé, fazia tempo. Essa foi uma coisa que nunca conseguimos alinhar. Você continuava dormindo até mais tarde e eu acordando cedo. Resolvi jogar baixo – fui dando beijinhos enquanto a fumaça do café chegava até você.
- Bom dia. Fiz café pra gente.
Você me puxa pra cama, e eu logo deixo o café esfriando na cabeceira. E imediatamente a gente encaixa aquela conchinha, daquelas difíceis mesmo de explicar.
- O dia está lindo, vamos andando até a praia?
Os cachorros, como que se tivessem ouvido a sugestão, entram em bando no quarto me ajudando te acordar com as lambidas de bom dia.
Enquanto você desperta, naquele ritmo vagarosamente gostoso e só seu, eu concluo, feliz, que aquilo é um sonho. Daqueles sonhados há tempo. Construídos num longo processo de detalhamento de paixões. Ninguém disse que seria fácil. E nós, sabendo que não era impossível, fomos lá e fizemos. Funcionou. É o gosto doce do privilégio de poder viver um sonho, ao invés de apenas sonhar.
Jaque Barbosa, adaptado por affectingyou